Notícia

Como a indústria da felicidade tem transformado a arquitetura nas últimas décadas

23/05/2019

"A arquitetura é um elemento fundamental para a qualidade de vida e o bem-estar das pessoas"

Ainda que o livro A Arquitetura da Felicidade não tenha causado muito alvoroço logo após a sua publicação no início dos anos 2000, o conceito defendido pelo seu escritor, Alan de Botton, de que a arquitetura é um elemento fundamental para a qualidade de vida e o bem-estar das pessoas, parece estar ganhando cada vez mais força e seguidores ao longo dos últimos anos. Pensando nisso, o Canadian Centre for Architecture de Arquitetura (CCA), em parceria com o curador Francesco Garutti, está apresentando uma exposição questionando as maneiras pelas quais a "indústria da felicidade" tem passado a explorar e controlar a vida das pessoas depois da crise financeira de 2008.

Our Happy Life, Architecture and Well-being in the Age of Emotional Capitalism (Nossa Vida Feliz, Arquitetura e Bem-estar na Era do Capitalismo Emocional) é uma exposição de projetos de arquitetura, obras de arte e fotografias. Samuel Medina, editor da Metropolis Magazine, conversou com Garutti para esclarecer os conceitos por trás da exposição do CCA, o impacto das mídias sociais em nossas vidas e o significado da arquitetura nos dias de hoje.

A ideia para a exposição surgiu depois de um frutífero encontro entre Garutti e o artista Simon Fujiwara durante a Bienal de Berlim em 2016. O trabalho que Fujiwara apresentou durante a nona edição da Bienal alemã - aquela que pretendia apresentava uma visão multicultural inclusiva e tolerante da Alemanha- intitulada The Happy Museum, fazia uma reflexão sobre quanto esta ideia parecia remota no presente. Refletindo sobre isso, em uma era onde até a qualidade de vida passou a ser encarada como uma mercadoria, Garutti começou a perceber que a “verdadeira felicidade” poderia ser encontrada em outras coisas, em outras áreas como jornalismo e a literatura.

O que é felicidade? É um conjunto de valores. É uma agenda política. Então eu pensei comigo mesmo: "Vamos propor aos arquitetos que eles pensem sobre o significado de felicidade." - Francesco Garutti

A exposição é uma espécie de documentação de produtos, fotografias, documentários e eventos produzidos durante os dez anos que seguiram a crise internacional de 2008. Segundo a minha visão como curador da exposição, este é o período de tempo em que a “felicidade” e a “positividade” passaram a ser a mais poderosas ferramentas de marketing. Durante esse período assistimos a publicação do livro de Will Davies, The Happiness Industry e Richard Layard tornou-se mundialmente famoso por sua teoria da "economia da felicidade".

Após a crise financeira de 2008, o conceito de saúde foi estruturalmente alterado, começando nos Estados Unidos e se espalhando para todo o ocidente. Passamos a priorizar a saúde mental sobre aquela física, o que levou a mudar o foco de "felicidade", para ideia de "bem-estar" de uma maneira mais ampla. Paralelamente, a arquitetura testemunhou uma profunda mudança, priorizando o “bem-estar” das pessoas e a “sustentabilidade” sobre a simples ideia de “arquitetura da felicidade”. Garutti explica que a saúde mental passou a ser um elemento fundamental na prática da construção civil. Começamos a falar mais e mais sobre “qualidades ambientais” e com isso, a necessidade de projetarmos estruturas sustentáveis e ambientalmente corretas. Ele destaca essa nova linguagem da arquitetura como algo que despontou no início dos anos 2000 e ganhou uma força impressionante depois da crise mundial de 2008. O Atlanta Marriott Marquis, projetado por John Portman, é um projeto significativo por si só, um edifício que pode ser definido como a "arquitetura da nova felicidade".

Quanto à arquitetura, Garutti está interessado em explorar como os arquitetos passaram a se posicionar, já que a qualidade da arquitetura não pode mais ser apenas avaliada “formalmente”. As empresas agora precisam lidar com projetos urbanos e planos diretores cada vez mais complexos e rigorosos, enquanto os arquitetos estão cada vez mais focados na experiência espacial da arquitetura. Debruçar-se sobre o desenho do espaço de vida faz com que os arquitetos adicionem significado aos seus projetos, algo que para Garutti, é uma das melhores consequências da grande crise de 2008.

Our Happy Life, Architecture and Well-being in the Age of Emotional Capitalism está aberta ao público até o próximo dia 13 de Outubro no Canadian Centre for Architecture.

Fonte: ArchiDaily


 

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